A CRIAÇÃO DO ESPÍRITO - Por Alex Zarthú



NÃO SABEMOS AINDA como se deu a criação do espírito,
pois a sua geração pela vontade suprema do Criador perde-se na eternidade, numa época em que a consciência espiritual se escondia na intimidade da mônada divina, recém- criada e individualizada e ainda sem noção de si mesma, por se encontrar na fase inicial de sua evolução. Eis a dificuldade dos espíritos em localizar, num tempo que se dilata na eternidade, a sua criação8 e as formas pelas quais vieram a existir.
Sabemos, no entanto, que esse princípio inteligente, ou mônada, iniciou suas experiências revestindo-se da matéria primordial ou fluido cósmico, passando por etapas sucessivas de materialização e desmaterialização, até atingir vibratoriamente a união com a matéria mais grosseira e bruta do plano físico, em processos de despertamento de suas qualidades adormecidas, ainda incompreensíveis para a humanidade.
Utilizando-nos da linguagem bíblica, de sua simbologia, podemos ter uma idéia desse processo evolutivo.
"Disse Deus: Haja luz. E houve luz." É a vontade do Eterno, do Incognoscível, em sua ação criadora, que produziu a luz da vida, como se fora uma emanação de sua própria essência divina.
Como tudo que existe, respira e vibra tem a sua existência em Deus, em sua própria essência, que preenche todas as dimensões e campos de evolução universais, torna-se razoável o fato de que a morte não possa ter uma existência real, como sendo cessação da vida, pois nada no universo existe fora da mente divina.9 O Gênesis descreve-nos em sua linguagem belíssima: "E o Espírito de Deus pairava sobre as águas" (Gn 1:2). Logo após, foi criado o elemento árido, e as águas produziram seus habitantes, a terra, o reino vegetal e animal e, por fim, o homem terrestre, numa síntese da evolução do espírito, que estagiou em todos os reinos da natureza até atingir a luz da razão, na condição humana.
Podemos ver, no simbolismo do espírito pairando sobre as águas, o princípio espiritual que se envolve com o elemento material, transmitindo-lhe seus atributos e qualidades.
Preparou-se assim, ao longo de incontáveis eras, para uma
união mais íntima e organizada com um futuro corpo, que lhe daria mais recursos para expressar sua natureza íntima.
Após esse estágio inicial, vemos que o mesmo princípio inteligente — que, por efeito didático apenas, aqui chamaremos de espírito — estabelece uma relação mais direta com a matéria, fecundando-a de vida, de sua própria essência.
Também no Gênesis encontramos: "Produza a Terra toda espécie de seres viventes" (Gn 1:20). É a fecundação da matéria pelo espírito, pois, na expressão "seres viventes",
podemos entender somente a união definitiva do espírito com a matéria, ou do princípio espiritual com o elemento material, estabelecendo uma ligação intensa, que resulta na evolução de ambos. Nesse ponto encontramos o princípio do conflito entre o espírito e a matéria. São atributos distintos que lutam por se estabelecer definitivamente, gerando conflitos íntimos ou externos que promovem mais tarde a evolução. É o drama evolutivo.
Primeiramente, em sua materialização, ou quando se revestem da matéria do plano físico, em sua fase inicial de
aprendizado, os atributos espirituais da mônada são eclipsados devido à natureza da matéria grosseira. Aos poucos, vão despertando, acordando a sua espiritualidade, passando pela fase conflitante até atingirem o ponto em que se colocam acima da matéria, dominando-a e demonstrando plenamente a sua verdadeira face espiritual.
Após intelectualizar a matéria por meio de seus atributos divinos, o espírito utiliza-a agora como forma de expressar sua intimidade, sua individualidade, enfim, suas qualidades, que foram despertadas na grande luta milenar da Criação. É o triunfo do espírito imortal sobre as formas materiais, expressando assim a sua verdadeira natureza.
O conflito deixa então de existir, e a ascendência espiritual sobre a materialidade torna-se uma realidade objetiva, passando o ser a evoluir em outros campos vibratórios além dos limites estreitos do mundo da forma.


8 A afirmação de que os próprios espíritos têm dificuldades de precisar o instante e
as condições de sua criação está em consonância com o item 42 de O Livro dos
Espíritos, e é discutida mais tarde por Kardec em A Gênese, capítulos 10 e 11.

9 A ilusão da morte já foi tratada por Zarthú em sua obra Serenidade, capítulo 27
(SANTOS, 1999).

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