A UMBANDA E A ROUPAGEM DOS PRETOS VELHOS - Por EUZÁLIA e SILVA

🔺Sociedade dos Espíritos
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#umbanda



94 De onde o Espírito tira seu envoltório semimaterial?
– Do fluido universal de cada globo. É por isso que não é igual em todos
os mundos. Ao passar de um mundo a outro, o Espírito muda de
envoltório, como trocais de roupa.
94 a Assim, quando os Espíritos que habitam os mundos
superiores vêm até nós, revestem-se de um perispírito mais
grosseiro?
– É preciso que se revistam de vossa matéria, como já dissemos.
95 O envoltório semimaterial do Espírito tem formas
determinadas e pode ser perceptível?
– Sim, tem a forma que lhe convém. É assim que se apresenta, algumas
vezes, nos sonhos, ou quando estais acordados, podendo tomar uma
forma visível e até mesmo palpável.

O Livro dos Espíritos itens 94 e 95


[...Euzália, Silva, Wallace e eu deixamos a comunidade espiritual em que nos encontrávamos e descemos vibratoriamente em direção à Crosta. A descida a que me refiro não significa que, como espíritos, estejamos
realmente acima da morada dos homens. Utilizo-me dessa expressão sem me preocupar com a questão da localização geográfica, o que é bastante complexo para tentar descrever em breves palavras, alem de fugir ao objetivo desta obra. Fato é que, quando afirmo que descemos, quero expressar apenas que relaxamos, por assim dizer, o padrão vibratório.
Na verdade, transpor as fronteiras vibratórias entre os dois lados da vida afigura-se para nós, desencarnados, como percorrer longa distância entre um ponto e outro do planeta. Isso se deve à densidade de fluidos e da matéria astral que compõem a atmosfera do mundo. Não obstante tenhamos mergulhado neste mar de radiações fluídicas e ondas magnéticas próprias do plano dos encarnados, antes que atingíssemos a Crosta propriamente dita, percorremos longos trechos em regiões inóspitas do astral, que é uma zona intermediária entre os dois planos da vida.
O plano astral é caracterizado por uma espécie muito densa de fluidos ambientes, produto da atmosfera psíquica que lhe dá origem, povoado de formas e criações mentais repletas do conteúdo emocional de nossos irmãos encarnados. Por ser área de transição, encontra-se mergulhado num oceano de vibrações que podemos classificar como inferiores. Os elementos que constituem essa região são, em essência, a fuligem emanada dos pensamentos desgovernados e a carga emocional tóxica que envolve encarnados e desencarnados em estágios mais primitivos ou acanhados de desenvolvimento espiritual, bem como as criações mentais de magos e cientistas das trevas. Junta-se a tudo isso, ainda, a contribuição triste da paisagem que se observa
nestas regiões sombrias do mundo astral.
Por outro lado, em meio a esse ambiente desolado, habitado por sombras e criações animalescas, verdadeiros oásis se erguem como postos de socorro e refazimento, os quais servem de base de operações para os espíritos do bem. São albergues, prontos-socorros, casas de transição e comunidades inteiras de espíritos benfeitores que sobrevivem em meio ao ambiente insalubre da natureza astral, trabalhando para resgatar almas, esclarecer consciências e prestar socorro a milhares de espíritos despreparados para a vida superior. São agrupamentos de
almas valorosas, que constroem tais abrigos provisórios e os mantêm pela força do pensamento elevado e do sentimento de solidariedade em relação aos espíritos sofredores.
Nossa pequena caravana se dirigia a um desses postos de socorro abençoados, antes de penetrarmos a morada dos homens. Aquela altura atingíamos uma região de difícil locomoção, devido ao intenso nevoeiro e à ventania, que parecia querer destruir tudo ao redor. Em nossa companhia havia mais cinco espíritos, de antigos soldados romanos, que nos auxiliavam durante o descenso vibratório.
Ouvimos vozes, sussurros e ruídos estranhos, que, aos poucos, foram se avolumando por todos os lados.
Confesso que fiquei ligeiramente apreensivo ao passar pela região, mas o olhar firme e confiante de Euzália e do companheiro Silva me inspirou confiança para prosseguir. O silêncio em nossa caravana foi quebrado por Euzália:
- Paremos por um momento, a fim de trocar de vestes.
Reagi com espanto diante do que ouvia. Então, deveríamos mudar nossos trajes? O que significava isso?
Euzália, circunspecta, esclareceu:
- Deste ponto em diante, penetramos numa região dominada por espíritos infelizes, e os habitantes desta morada astral não podem nos reconhecer com a aparência perispiritual em que nos encontramos. Por isso, precisamos modificar nossa vibração e imprimir outra aparência a nossos corpos espirituais.
Enquanto explicava, Euzália e Silva puseram-se a concentrar seu pensamento. Imediatamente os soldados ou
guardiões levantaram suas lanças, à semelhança de dardos de energia, e formaram em torno de nós uma espécie de escudo protetor. No ambiente inóspito em que nos encontrávamos esse era um comportamento necessário, devido aos elementos psíquicos desgovernados e desequilibrados que nos envolviam. mirei Euzália e presenciei outra vez a transformação da madona de rara beleza na figura simples de uma escrava, refletindo nos olhos a intensidade de seu magnetismo.
Primeiramente, vi transformarem-se diante de mim as vestes suaves e translúcidas de Euzália. Pouco a pouco, seu vestido assumiu aspecto mais simples; então, completamente diferente, assemelhava-se à vestimenta própria das mulheres das senzalas, segundo o costume de meados do século xvi. Euzália, no momento da
transformação, parecia um mã vivo. Verdadeiras ondas de fluidos eram atraídos em sua direção, formando, em seu redor, uma espécie de campo magnético, que, de algum modo, materializava-se nos trajes com os quais Euzália se distinguia a partir daquele momento. A seguir, foi a vez da aparência espiritual. Paulatinamente, as feições de Euzália transfiguravam-se, assumindo nova conformação. A aparência clara, de tipo europeu, tomou as características de uma negra, sem perder, porém, a delicadeza no olhar e a simplicidade do espírito nobre. As rugas se fizeram notar, e os cabelos tornaram-se esbranquiçados. Já não era mais Euzália que estava diante de mim, mas Vovó Catarina, a preta-velha que eu conhecera no passado, numa tenda de umbanda. Um sorriso largo estampou-se em seu semblante, e vi que a beleza do espírito e sua nobreza não estão em sua aparência, mas em sua intimidade, em sua essência divina. Os olhos de Vovó
Catarina pareciam duas pérolas cintilantes, tamanhos eram seu brilho e clareza.
Virei-me, então, para nosso companheiro Silva, a tempo de presenciar, extasiado, a transformação que se operou em seu perispírito. Silva estava envolvido por uma luz peculiar, que dava a impressão de encobrir seu corpo espiritual; mal podia divisar a forma humana em meio à luminosidade que irradiava do companheiro.
Eu tremia por dentro, tamanha a emoção que me dominava. Aos poucos a luminosidade diminuía, e pude perceber que Silva se transfigurava lentamente na figura de um homem de mais ou menos 60 a 70 anos de idade, barba e cabelos brancos, vestido com traje muito simples. Sua pele era morena escura, e os olhos, azuis, brilhavam como estrelas na noite.
Euzália, ou melhor, Vovó Catarina sorriu e saudou gostosamente:
- Sarava, meu pai! Sarava, preto-velho.
- Salve, minha mãe, minha velha. Estamos prontos para o trabalho.
Silva agora era um pai-velho. O casal de anciãos era perfeito. Eram agora Vovó Catarina e o preto-velho no qual se transformara o amigo Silva, ambos trabalhadores ativos na seara do Mestre.
Foi ele quem, dirigindo-se a mim, deu explicações:
- Não se assuste, caro Ângelo, se eu e Euzália tivemos de assumir nova forma espiritual. Assim se faz necessário, a fim de que nos relacionemos melhor com outros espíritos que visitaremos. Não basta que os guardiões nos protejam de vibrações mais densas, é preciso que nós mesmos possamos assumir aparência comum aos olhos de nossos irmãos, para não insultá-los com nossa altivez. Precisamos todos compreender que, para falar a linguagem de umbandistas e de outros companheiros que têm afinidade com os cultos afros, é necessário que tomemos conformação compatível com a visão de nossos irmãos.
- Creio que Ângelo já está acostumado com nossa maneira de trabalhar - falou Vovó Catarina. - Mas, mesmo assim, meu amigo talvez tenha alguma dúvida, não é, Ângelo?
- Bem, só queria saber se eu também terei que me transformar num preto-velho... ”
- Claro que não! - respondeu Vovó Catarina.
E, contendo o riso, talvez captando a imagem mental que fiz de mim mesmo, na figura de um anciãonegrorepórter,
prosseguia:
- Ângelo, você é um espírito que se afiniza muito bem com o método educacional espírita, e não vejo razão para ser diferente. Nosso campo de trabalho é outro. Envolvemo-nos com companheiros que trazem uma lembrança atávica impressa em seu campo espiritual. Sua cultura, seus costumes e crenças, vividos ao longo de encarnações e encarnações, forçam-nos a falar uma linguagem diferente, para que sejamos compreendidos com clareza. 
Contudo, a verdade que desejamos transmitir é a mesma, Ângelo. E não ignoramos de modo algum o sentido divino que existe na codificação espírita. Reconhecemos a natureza do espiritismo e a verdade da revelação dada a Allan Kardec. Em essência, ensinamos a mesma coisa, pontificamos a mesma verdade: nosso alvo é que é diferente, nosso público é outro. Por isso julgamos necessário nos apresentar dessa forma e falar nessa linguagem mais simples, popular. A meu ver, ao agir assim praticamos o método que herdamos do grande professor da Galiléia: a pescadores, falar sobre pesca e marés; a cobradores de impostos, referir-se a moedas e talentos. Isto é: a cada um, a mesma verdade, adaptada, porém, a seu entendimento, sua cultura e sua maneira de ver a vida...]

[...A Umbanda, Ângelo, é uma religião de magia, e tudo nela tem um sentido mágico - disse o preto-velho.
 - Não que seja uma verdade diferente, não, mas a metodologia utilizada na umbanda e bem distinta daquela
utilizada no espiritismo. Mesmo referindo-nos à mesma verdade, utilizamo-nos de vocabulário bastante diverso. Adotamos a aparência de um pai-velho ou de uma mãe-velha porque acreditamos ser mais afeita aos companheiros, aos espíritos aos quais nos dirigimos...]

[...Muitos espíritas parecem ter medo ou preconceito com relação a espíritos que se manifestam como pretos velhos ou caboclos. Desconhecem, geralmente, a tarefa nobre que é desempenhada por espíritos muito esclarecidos, que, em muitas ocasiões, preferem assumir a aparência simples de entidades assim, tão presentes na cultura e na história do povo brasileiro.
- E, apesar de ser uma conclusão lógica, outra coisa deve ser dita- continuou Silva. - Não é apenas pelo fato de um espírito se apresentar como pai-velho ou caboclo que ele seja elevado ou esclarecido. O bom senso não nos deve deixar cometer um engano desses. E justamente nesse ponto muitos umbandistas acabam se equivocando. Sabemos de entidades maldosas que por anos e anos trabalham com médiuns imprevidentes, imprudentes ou ignorantes, dizendo ser Pai Fulano ou Pai Cicrano. Médiuns que, sem o hábito de estudar, tornam-se vítimas de processos obsessivos avançados, pois dão ouvido a qualquer espírito. Allan Kardec, o codificador do espiritismo, trouxe muita luz sobre esse aspecto intrincado do exercício da mediunidade.
Pessoalmente, acredito que ele não escreveu somente para os espíritas, mas para todo aquele que se propõe entrar em contato com as verdades espirituais e com o intercâmbio mediúnico. Por essa razão, defendo que os umbandistas também se dediquem com mais afinco ao estudo, sem subestimar as explicações, os conselhos e as advertências que Allan Kardec trouxe em O Livro dos Médiuns...]

Texto extraído do livro ARUANDA
Ditado pelo espírito de ÂNGELO INÁCIO
Médium Robson Pinheiro



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