NEANDERTAIS TAMBÉM SABIAM FAZER ARTE E DOMINAVAM A LINGUAGEM

Humanos anatomicamente modernos (Homo sapiens) colonizaram a Europa há cerca de 45-43 mil anos, substituindo os Neandertais (Homo neanderthalensis) após o período em torno de 40 mil anos atrás. Mas além do mistério do porquê os Neandertais foram extintos - existindo hoje diversas hipóteses -, existe outro que divide a comunidade acadêmica há décadas: seriam os Neandertais intelectualmente similares à nossa espécie? Enquanto alguns especialistas não acreditam nisso, evidências nos últimos anos vêm se acumulando de que a capacidade cognitiva dos nossos parentes evolucionários mais próximos possuíam, no mínimo, o mesmo potencial da nossa. E, agora, duas novas impactantes descobertas, englobando dois estudos publicados ontem na Science, deixam poucas dúvidas de que nossos parentes "brutamontes" não tinham nada de brutos, sabiam inclusive expressar arte como nós e provavelmente eram dotados de linguagem!


NEANDERTAIS


       O atual registro fóssil sugere que os Neandertais - espécie Homo neanderthalensis (um dos primatas humanos arcaicos) - divergiram da linhagem primata que levou aos atuais humanos modernos (subespécie Homo sapiens sapiens) há cerca de 400 mil anos na África, evoluindo possivelmente do Homo heidelbergensis. Os Neandertais, então, migraram para o Norte, na Eurásia (região que corresponde à união dos continentes Europa e Ásia), onde se tornaram um grupo geograficamente isolado que evoluiu de forma independente da linhagem que veio a representar os humanos modernos no continente Africano. Chegaram a ocupar a Europa e o Oeste da Ásia, indo tão longe ao Leste quanto o Sul da Sibéria e tão longe ao Sul quanto o Oriente Médio.








 Apesar de existir um esteriótipo popular de que os Neandertais eram brutamontes das cavernas com pouca inteligência, pesquisas científicas nas últimas décadas mostraram o oposto. Os Neandertais eram uma espécie humana avançada, capaz de processar pensamentos inteligentes e capazes de resistirem e de se adaptarem aos mais desafiantes ambientes.


       Evidências mostram que essa espécie tinham uma complexa cultura, apesar de não terem se comportado da mesma forma que os humanos modernos que viveram na mesma época. Possuíam um espectro de ferramentas razoavelmente avançado, classificado como 'tecnologia Modo 3' que também era usada pelos primeiros membros Homo sapiens. Durante a estadia dos Neandertais na Europa, eles foram desenvolvendo ferramentas cada vez mais sofisticadas, similares às ferramentas laminadas dos humanos modernos. Muitas delas podem ter sido copiadas da nossa espécie ou mesmo barganhadas. Além disso, também conseguiam controlar o fogo para aquecimento, cozimento de alimentos e proteção. Vestiam roupas de peles de animais para as áreas mais frias, porém não existem evidências se as costuravam ou apenas as amarravam juntas.



        Como moradia, os Neandertais utilizavam frequentemente cavernas, mas também construíam abrigos em espaço aberto. Consumiam significativas quantidades de carnes (caça) e vegetais diversos, e existem evidências de que alguns membros da espécie também chegavam a consumir carne humana. Os mortos eram frequentemente enterrados - às vezes junto com objetos, o que pode indicar possível função cultural nessa prática -, apesar de não existir evidência conclusiva se isso era parte de um comportamento ritualístico.



        Além disso, estudos recentemente publicados mostram que quando os humanos modernos deixaram a África, muitos perderam vários genes dos seus ancestrais africanos, especialmente quando começaram a ocupar a região hoje da Europa. Porém, tudo indica que quando nossa espécie começou a se acasalar com os Neandertais - sim, as duas espécies mantinham relações sexuais entre si, gerando descendentes férteis (1) - vários dos genes perdidos voltaram aos nossos descendentes (ligados ao ancestral comum de ambas as espécies).  A troca de genes entre as duas espécie realmente ocorreu com significativa intensidade após a saída da África, e isso inclui a descoberta que a maior parte dos africanos hoje não carregam traços de DNA neandertal., apenas os Europeus e Asiáticos no geral. As pessoas hoje do Leste Asiático possuem maior carga genética dos neandertais (2,3%-2,6%) do que aqueles vivendo no Oeste Asiático e na Europa (1,8%-2,4%).



       O primeiro fóssil de Neandertal foi encontrado em 1829, e, desde o século XIX, milhares de fósseis representando os vestígios de centenas de Neandertais foram recuperados de vários sítios arqueológicos na Europa e no Oriente Médio, incluindo bebês, crianças e adultos. Hoje essa é a espécie humana além do Homo sapiens mais estudada e conhecida no meio acadêmico.



        Os Neandertais persistiram por centenas de milhares de anos em condições extremamente difíceis. Compartilharam a Europa por cerca de 10 mil anos com o Homo sapiens, mas há aproximadamente 30-28 mil anos, os Neandertais desapareceram. Isso os tornam os parentes primatas mais próximos de nós há serem extintos, onde os humanos modernos e os Neandertais compartilham um ancestral comum datado cerca de 800 mil anos atrás. Em comparação, os chimpanzés divergiram da mesma linhagem primata há cerca de 5-7 milhões de anos.







       Existem várias especulações sobre como eles foram extintos, mas nada ainda conclusivo. A principal teoria - e hoje provavelmente a única, apresentando sólidas e vastas bases científicas de evidência - basicamente defende que os Neandertais foram substituídos pelo Homo sapiens. Várias são as razões propostas para essa substituição, englobando motivos biológicos, sociais e/ou climáticos. Apesar de terem um nível de comportamento e de cognição comparável aos humanos modernos, esses últimos possuíam algo a mais ou estavam fazendo algo diferente para conseguirem dominar por completo a Europa.



      Entre os fatores que podemos citar, temos:



   Biológicos



- O sucesso reprodutivo e taxa de sobrevivência dos Neandertais parecem baixo quando comparado com o Homo sapiens
- A taxa metabólica dos Neandertais parecia ser maior do que a da nossa espécie. Isso em condições de grande oferta de alimento faz pouca diferença, mas em invernos rigorosos ou condições climáticas instáveis, uma maior necessidade calórica pode trazer grandes desvantagens
- Evidências anatômicas sugerem que os Neandertais não corriam tão bem quanto o Homo sapiens(ossos do calcanhar mais longos, indicando tendões de aquiles mais longos - tendões mais curtos armazenam mais energia e tornam-se mais eficientes na corrida). Como caçavam usando emboscadas, isso não fazia muita diferença. Mas cerca de 50 mil anos atrás, mudanças climáticas fizeram com que grande parte do Norte Europeu fosse de florestas para tundras, o que talvez atrapalhou as estratégias de caça dos Neandertais, forçando-os a se isolarem nas áreas florestais restantes. Enquanto isso, os humanos modernos se adaptaram bem ao novo ambiente.
- Vários estudos mostram que cerca de 40% dos vestígios ósseos de Neandertais encontrados indicavam uma condição conhecida como hipoplasia, esta a qual é causada pela falta de nutrientes na infância. A dependência de carne na dieta dos Neandertais pode tido grande impacto quando eles tentaram adaptar uma dieta mais vegetariana - a exemplo do Homo sapiens - durante um período de maior escassez de caça. Isso pode ter tido um grande impacto negativo a nível populacional.



   Sociais e comportamentais:



- A cultura neandertal pode não ter progredido muito, ao contrário da complexidade cultura do Homo sapiens, tornando-os menos fortes como grupos. Aliás, evidências sugerem que eles de fato tendiam a se isolar em pequenos grupos.
- Neandertais podem ter tido uma limitada capacidade de fala e linguagem comparado com o Homo sapiens (algo que controversas evidências anatômicas podem reforçar, como a posição da língua na boca e a laringe diferenciadas).
- Possíveis interações violentas com os humanos modernos (conflitos que não terminaram nada bem para os Neandertais)



   Ambientais ou climáticos:



- Evidências científicas mostram que o período glacial entre cerca de 65 mil anos e 25 mil anos atrás (conhecido como OIS-3) parece ter sido de bruscas e rápidas mudanças climáticas, como profundos impactos ambientais. Humanos modernos parecem ter tido um maior alcance de adaptabilidade ambiental, o que pode ter feito toda a diferença nesse período.
- Um outro modo de ver os efeitos do OIS-3 é em um cenário onde todas as espécies humanas na Europa acabaram perecendo com as drásticas mudanças climáticas há cerca de 30-28 mil anos atrás. Como não existiam outros Neandertais fora da Europa, o continente se tornou o túmulo final dessa espécie. Porém, como ainda existiam muitos Homo sapiens na África, novas levas de migração dessa espécie teriam re-colonizado a Europa mais tarde. Aliás, a recente descoberta que os Britânicos há 10 mil anos possuíam pele escura pode ser até mesmo um indicativo desse cenário (


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